Jornal do Brasil – 13/abr/2008 – Edição de aniversário.

Comida boa também se encontra em quentinhas.
Bacalhau e cream cheese levam as embalagens até o high society.
Anna Luiza Guimarães

O Dicionário Aurélio a define como "Embalagem aluminizada ou de isopor, para conservar quentes os alimentos, em geral para viagem". Popular por natureza, já que alimentam trabalhadores no cansativo dia-a-dia, as quentinhas começam a invadir o mundo do high society, deixando um rastro de sabores capaz de satisfazer a qualquer paladar. Que o diga Rodrigo Cavalcanti, de 24 anos, praticante de asa-delta e que passa quase todos os dias na comunidade Vila das Canoas, em São Conrado, para saborear as iguarias feitas pelo paraibano Ronaldo Gomes, de 54 anos:

– A comida dele é melhor do que a lá de casa – conta Rodrigo, que mora no mesmo bairro. – A cozinha do Ronaldo já e ponto de encontro do pessoal da rampa de asa-delta. Todo mundo aderiu às quentinhas dele – revela, orgulhoso por ter feito a ‘descoberta’.

A história de Ronaldo Gomes começa aos 18 anos, quando veio servir ao Exército no Rio. Depois do teste de aptidão, foi parar na cozinha – e de lá não saiu mais. Passou 15 anos trabalhando nas mais luxuosas delicatessens da cidade, quando decidiu começar o seu próprio negócio. Em 1980, junto com a mulher Isabel, foi morar na Estrada das Canoas, em São Conrado, na comunidade Vila Canoas, onde abriu a "Companhia dos Sabores". No início, se especializou em strudels sob encomenda:

– Trabalhava cerca de 12 horas em uma delicatessen e, quando chegava em casa, ainda passava seis horas preparando os strudels – conta. – Até que consegui estabilizar meu negócio e pude largar o emprego.
Os strudels fizeram sucesso e eram vendidos para lojas luxuosas da cidade, como o antigo Biruta. Em seguida, Ronaldo partiu para fazer pastas de diferentes gostos. Resultado: ganhou o supermercado Zona Sul como cliente. Há algum tempo, a pedidos, Isabel sugeriu ao marido que fizessem quentinhas para o almoço. O sucesso foi rápido.
– No primeiro dia vendemos 10 quentinhas, hoje já são 40 por dia – orgulha-se Isabel.
O negócio entrou para uma disputa acirrada em um dos clubes mais luxuosos da cidade.
– Fomos chamados para fazer 90 quentinhas aos funcionários do Gávea Golf - contou Isabel. – Será um teste, pois eles já tem um fornecedor. O melhor ficará.
No que depender da clientela, a super quentinha do casal, que custa R$ 7, já ganhou.

Dudu, o verdadeiro dono de um shopping da Zona Sul.

Os shoppings da Zona Sul são um bom mercado para os vendedores de quentinhas, mas não é qualquer um que agrada ao exigente público formado pelos lojistas. Na Gávea, quem conquistou a clientela foi Eduardo Fabiano Freire Pires Claro, de 28 anos, o Dudu das quentinhas:

– Eu fui vendedor durante cinco anos em uma sapataria, mas meu primeiro emprego foi entregando quentinhas – relembra.
Há dois anos, Dudu resolveu que não queria mais ter patrão e partiu para tentar seu próprio negócio. Deu certo.
– Comecei fazendo sanduíches e doces para vender e depois fui para as quentinhas – conta. – No meu primeiro dia, vendi 22 embalagens. Hoje já são 100 por dia – disse o pequeno empresário.
Dudu tem 40 variedades e cinco tipos de sobremesa em seu farto cardápio.
Os lojistas de outro shopping na Zona Sul do Rio já foram conquistados pela boca.
– Já experimentei outras quentinhas, mas a do Dudu é com certeza a melhor – elogia a vendedora Carolina Miranda, de 21 anos.
Há nove anos trabalhando no Shopping da Gávea, Ana Maria Alves revela o diferencial da quentinha mais disputada do trabalho.
– A embalagem dele tem divisórias. A comida não fica toda misturada, é tudo bem separadinho e muito gostoso – explica Ana Maria.

O entregador Patrick Carvalho conta que nem pode mais passar o telefone da empresa:

– No início nós entregávamos até panfletos oferecendo os nossos serviços, mas agora não temos nem como dar conta de tantos pedidos – disse.
Para Dudu, vale a velha máxima: qualidade acima de tudo.
Garota das Canoas.

O casal das quentinhas VIPs oferece 13 tipos de saladas diferentes, carne assada, feijoada, bacalhau, folhados com catupiry e até estrogonofe feito especialmente com cream cheese. Os diferentes cardápios agradam a todos os públicos e o que não faltam são pedidos de que o negócio aumente:

– Se eles abrirem um restaurante, serei cliente certa – falou Elizabeth Lima, moradora de uma casa de luxo próxima à comunidade.
Segundo Elizabeth, quando sua cozinha estava em reforma, a quentinha sustentou sua família.
– Gostamos tanto que, no fim de semana, só vamos lá – contou.
A idéia de abrir um restaurante anima o cozinheiro.
– Já tenho até o nome: Garota das Canoas – brinca Ronaldo. – Como o "Garota de Ipanema".

JB

Corte de custos para poder manter qualidade e preços.

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Nem só de fama vive o casal das quentinhas vips de São Conrado, Ronaldo e Isabel Gomes. Dona da Companhia dos sabores há 28 anos, a dupla teve de se adaptar aos tempos para poder manter o preço em conta e, junto a ele, a clientela. Depois de contratar 16 funcionários, Ronaldo acabou convencido de que só sobreviveria no mercado aliando qualidade a corte de custos.
Há cerca de dois anos, foi preciso diminuir a equipe para que o negócio valesse mesmo à pena financeiramente:

– Ficamos só a família mesmo – disse Ronaldo. – Eu, Isabel e minha filha Priscila. Ainda tenho um outro filho, mas que só quer saber de surfar.
Agora, com o enorme sucesso das quentinhas, a lista de clientes voltou a ferver.
– Já tivemos que contratar duas assistentes para atender ao telefone - contou Ronaldo.

A ajudante Elaine Dodd confirma que o negócio está voltando a crescer. Ela chega às 7h no trabalho e fica até 12 horas atendendo os pedidos:

– Juntando as quentinhas e os strudels, são cerca de 50 pedidos por dia – falou.
Carmem Lúcia, que trabalha há dois meses com o casal, elogia a postura da dupla:
– Eles vão acabar abrindo um restaurante. São muito cuidadosos e gostam do que fazem.
Ronaldo ainda precisou contratar um motoboy para ajudar nas entregas.
– Não estava mais dando conta – conta a filha Priscila. – As quentinhas são pedidas todas ao mesmo tempo, é difícil atender.

Além das entregas, os clientes também almoçam no lugar, uma cozinha industrial, onde é feita a comida e que tem apenas duas mesas com poucos lugares:

– Há dias em que fica fila de espera na porta – disse a filha. – Estamos precisando aumentar o nosso espaço.
Isabel, que acorda às 5h para começar a cozinhar e só pára de trabalhar no início da noite, já pediu um assistente de cozinha ao marido.
– O sucesso nos exige investimento, não tem jeito - brinca Ronaldo.
Mesmo com tantas despesas, o casal empreendedor, que se conheceu na Rocinha, não perde as esperanças de abrir um restaurante.
– Ainda falta verba, mas temos o apoio das pessoas. Isso vai nos levar onde queremos - concluiu o cozinheiro.

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Reprodução integral de matéria veiculada no Jornal do Brasil.